O PERÍODO GESTACIONAL PARA A MULHER

Por Ana Cristina Heiderscheidt Silveira e Giovana Hoffmann

A gravidez faz parte do ciclo vital de muitas mulheres e ocasiona grandes mudanças em sua vida. É a partir da gravidez que ela deixa de ser apenas mulher, para adquirir o papel social de mãe. Por ser um período de grandes transformações psíquicas e um período de transição, demanda um suporte a essas mulheres dos profissionais de saúde durante essa fase [1].

É na primeira consulta com o médico que a mãe busca tirar as primeiras dúvidas acerca da gestação, certificar se está realmente grávida, se seu corpo está preparado para esse bebê, se está tudo bem com a saúde desse bebê, bem como as ansiedades e dúvidas sobre o futuro da gestação. O profissional deve reconhecer que esse é um período de ambivalência na vida da mulher. Toda gestante quer e não quer estar grávida, pois neste período ansiedades e medos primitivos afloram, o que demanda do profissional compreender este período sem julgamentos [1].

Nesse processo, o psicólogo poderia auxiliar acolhendo esta mulher frente às incertezas apresentadas por ela. Ele também deve levar em conta que cada mulher vive a gestação de forma única, então deve olhar para sua subjetividade. Com o acompanhamento psicológico durante a gravidez, o psicólogo poderá esclarecer possíveis dúvidas que ficaram após a consulta com o médico, e ajudá-la a reconhecer de forma clara seus sentimentos e emoções [2].

Com o passar dos meses, novas dúvidas e ansiedades surgem na gestante. O primeiro trimestre é no qual geralmente ocorrem alterações de humor devido às mudanças hormonais e psicológicas, enjoos, as primeiras modificações corporais, entre outros [4]. No segundo trimestre é quando acontecem os primeiros movimentos do feto e a mulher sente seu bebê concretamente. Também é nesse período que ocorrem mudanças no desejo sexual.

Já no terceiro trimestre, começam a surgir ansiedades e medos com o parto que se aproxima, e as queixas físicas começam a aumentar. É de extrema importância o profissional estar atento a essas mudanças e proporcionar uma escuta acolhedora, tomando cuidado para não ter uma fala muito técnica, dificultando a compreensão desta mulher [4].  

No parto ocorre a transição entre a gravidez e o puerpério, é um período curto, porém marcado por grandes emoções e mudanças. Com o parto diversos medos começam a surgir, como o medo da dor que está por vir, o medo do bebê nascer e rasgar sua genitália, entre outros. A escolha entre os diversos tipos de partos (cesárea, normal, natural e humanizado) também geram dúvidas entre essas mulheres; questões religiosas e culturais também podem afetar na escolha do parto, causando insegurança e o medo de não ser capaz de gerar o bebê. O hospital também pode representar anseios para essa mulher, afinal é um ambiente desconhecido e por isso deve ser um local onde se sinta acolhida [3].   

O parto então é um fato social, no qual surge um novo ser humano. Ele é considerado um processo psicossomático, rodeado por idealizações e anseios; demanda dos profissionais orientar, fortalecer, escutar e esclarecer sobre as diversas questões que aparecem nesse momento. Esses esclarecimentos são importantes para o bem estar da mulher e possibilitam que ela possa enfrentar essas mudanças de forma mais equilibrada [3].

REFERÊNCIAS

[1] ALVES, C. F. et al. Intervenção Psicológica no período pós-parto em uma maternidade. Disponível em: http://online.unisc.br/acadnet/anais/index.php/jornada_psicologia/article/view/10213. Acesso em: 16 mai. 2018.

[2] FLECK, A. O bebê imaginário e o bebê real no contexto da prematuridade. Disponível em: http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/37208/000820507.pdf?. Acesso em: 16 mai. 2018.

[3] MALDONADO, M. T. Psicologia da Gravidez: parto e puerpério. 14 ed. Rio de Janeiro: Editora Saraiva, 1997.

[4] SARAMENTO, R. SETUBAL, M. S. V. Abordagem psicológica em obstetrícia: aspectos emocionais da gravidez, parto e puerpério. Disponível em:  http://periodicos.puc-campinas.edu.br/seer/index.php/cienciasmedicas/article/viewFile/1260/1235. Acesso em: 16 mai. 2018.

AS ATRIBUIÇÕES DO PSICÓLOGO HOSPITALAR

Por Stefanie Debatin

O Brasil é considerado um dos países pioneiros no desenvolvimento de uma nova especialidade na área da Psicologia, a Psicologia Hospitalar que surge em meados da década de 80. Este termo é utilizado para nomear as atividades do psicólogo da saúde em hospitais, onde se fazem presentes os processos doença-internação-tratamento, mediados pela relação doente-família-equipe. Portanto, os alicerces da Psicologia Hospitalar são a construção e a execução de teorias e técnicas específicas voltadas às pessoas hospitalizadas[1].

De acordo com o Conselho Regional de Psicologia do Paraná[2], o objetivo geral da Psicologia Hospitalar é pautado no acolhimento e no trabalho com pacientes de qualquer faixa etária, bem como com suas famílias, que estão em sofrimento psíquico decorrente da sua patologia, internação e tratamento.

Em relação aos fazeres do psicólogo hospitalar frente ao adoecimento e à internação, este atua como um facilitador da comunicação e da expressão do ser por meio da linguagem. Em conjunto com a equipe multidisciplinar, a melhora da comunicação serve de auxílio para a tomada de decisões e encaminhamentos frente às dificuldades apresentadas pelos pacientes e sua família. O psicólogo também pode atuar como um mediador entre os membros da equipe ou até mesmo entre a equipe e o paciente, com a finalidade de reduzir o estresse que é muito comum neste local[3].

O psicólogo hospitalar deve ser um observador qualificado, que interpreta os anseios do paciente, tornando-se um responsável sobre as transformações no processo de recuperação. Quando o paciente for uma criança, por exemplo, é imprescindível que se considere outras questões como as reações de cada uma delas, características ambientais e do período evolutivo no qual ela se encontra naquele determinado momento [4]. É muito importante que o profissional de Psicologia tenha conhecimento das fases da infância, para que ele se atente à saúde do paciente de forma integral e não focalizada[5].

Mäder[3] afirma que é preciso considerar que o psicólogo não lida somente com o sofrimento do paciente, mas também com a família e até mesmo com outros profissionais envolvidos, favorecendo o enfrentamento da doença por todos. O profissional de Psicologia é capaz de oferecer suporte psicológico para os familiares da criança internada, uma vez que cada membro pode manifestar as mais diversas reações diante daquele momento. As técnicas que o psicólogo usa, varia de caso para caso, respeitando a necessidade do paciente e da família.

Uma possibilidade de intervenção é a escuta qualificada, que é considerada uma forma de acolhimento verbal ou não verbal do próprio paciente ou de seu acompanhante, tendo em vista os diversos sentidos que a internação pode trazer a estes [6]. Ao possibilitar ao indivíduo essa expressão de seus sentimentos e emoções, o psicólogo estará contribuindo para que ele possa elaborar e ressignificar suas vivências, tornando-os sujeitos ativos diante do processo de adoecimento[7].

Sendo assim, a atuação no hospital se dá de forma distinta da psicologia tradicional, uma vez que o psicólogo vai ao encontro do sujeito e, junto do mesmo, constrói a demanda de trabalho. Além disso, o profissional de Psicologia também pode atuar como um mediador entre os membros da equipe e o paciente, diversificando ainda mais as possibilidades de trabalho do psicólogo no campo hospitalar.

 

REFERÊNCIAS

[1] ALMEIDA, Raquel A. MALAGRIS, Lucia E. N. A prática da Psicologia da Saúde. Revista da SBPH, Rio de Janeiro, v. 14, n. 2, p. 183-202, jul./dez. 2011. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-08582011000200012>. Acesso em: 01 jun. 2017.

[2] CONSELHO REGIONAL DE PSICOLOGIA DO PARANÁ. Manual de Psicologia Hospitalar: manual. Curitiba: Unificado, 2007.

[3] MÄDER, Bruno Jardini. Psicologia hospitalar: considerações sobre assistência, ensino, pesquisa e gestão.1. ed. Curitiba: CRP-PR, 2016.

[4] BAPTISTA, Makilim Nunes; DIAS, Rosana Righetto. Psicologia Hospitalar: teoria, aplicações e casos clínicos. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2012.

[5] CALVETT, P. Ü.; SILVA, L. M.; GAUER, G. J. C. Psicologia da saúde e criança hospitalizada. Psic, São Paulo, vol.9, n. 2, p. 229-234, dez. 2008. Disponível em: < http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1676-73142008000200011>. Acesso em: 01 abr. 2017.

[6] LAZARI, A. H. et al. Escuta e acolhimento como ferramentas de avaliação da satisfação do usuário de um hospital ensino. In: IX EPCC – ENCONTRO INTERNACIONAL DE PRODUÇÃO CIENTÍFICA UNICESUMAR, 9, 2015. Anais Eletrônicos. p. 4-8.

[7] ALCÂNTARA, T. V. et al. Intervenções psicológicas na sala de espera: estratégias no contexto da Oncologia Pediátrica. Rev. SBPH, Rio de Janeiro, vol.16, n. 2, p. 103-119, dez. 2013. Disponível em: < http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-08582013000200008>. Acesso em: 29 mar. 2017.

Metodologia colaborativa na educação: conceito e vantagens

Por Aline Marques

O método colaborativo é uma transformação na forma de agir e se posicionar no processo ensino/aprendizagem, corresponde a uma atividade em que os participantes compartilham suas dificuldades e conhecimentos, se enriquecendo mutuamente [1]. O método pode-se definir como interação social, onde não é apenas o compartilhamento de conhecimento que é a característica principal, mas também o envolvimento de todos na construção e manutenção do conhecimento, originado da interação participativa de todos os envolvidos na atividade colaborativa [1].

A aprendizagem colaborativa é uma metodologia de aprendizagem, pois por meio do trabalho em grupo e pela troca entre os pares, as pessoas envolvidas no processo aprendem juntas [2]. Não há dados que comprovem quando se iniciou a ideia de reunir indivíduos a favor de um objetivo em comum, entretanto, sabe-se que o trabalho em equipe é um método antigo e utilizado desde o homem pré-histórico.

No ambiente escolar, muitos professores favorecem o trabalho em equipe, entretanto, o sistema escolar atual exige notas e avaliações individuais para chegar à aprovação e reprovação dos alunos. Dentro das salas de aula pode ser um tanto quanto difícil fazer com que os alunos trabalhem em equipe. Uma porque em muitos casos os alunos se preocupam com notas, por isso em um trabalho grupal o aluno que sabe mais acaba fazendo a maior parte do trabalho para “ajudar” os outros, já que talvez sua preocupação é que o colega tire boas notas.

Muitos professores buscam mudanças no contexto escolar, tentando realizar mais interações entre os alunos. A interação é como um apoio, pois imprime um caráter de coletividade para a própria realidade do ensino, na qual a dinâmica didática apresentará uma ação efetiva e concreta entre os protagonistas do processo ensino aprendizagem [1].

Fazer com que os alunos se envolvam em uma atividade entre si que permitam manifestar, concordar ou discordar, acrescentar, refutar afirmações em um espaço como ambiente de aprendizagem permite-nos analisar a perspectiva da concepção de aprendizagem envolvida em tal processo [1]. Todos os alunos envolvidos na aprendizagem colaborativa são automaticamente responsáveis por seu progresso, progresso do seu grupo ou até mesmo no fracasso, num relacionamento solidário e sem hierarquias. Cria-se então a responsabilidade entre os alunos mostrando que a culpa do fracasso nem sempre é só do professor [2].

 

Referências:

 

SILVA, Vitor de Almeida. A aprendizagem Colaborativa como método de apropriação do conhecimento químico em sala de aula. 2011. 144 f. Dissertação (Mestrado) – Curso de Mestrado em Educação em Ciências e Matemática, Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2011. Disponível em: <https://mestrado.prpg.ufg.br/up/97/o/Dissertação_-_Vitor_de_Almeida_Silva.pdf?1332271839>. Acesso em: 26 mar. 20017.

 

TORRES, P. L. Laboratório on-line de aprendizagem: uma experiência de aprendizagem colaborativa por meio do ambiente virtual de aprendizagem. UNICAMP, Campinas, v. 27, n. 73, p. 335-352, set./dez. 2007.

 

O TREINO DE HOJE #TÁPAGO: DÍVIDA COM QUEM?

Se o treino foi pago, é uma dívida? E, se for dívida, é com quem? A pergunta é simples, mas as respostas não.

Por: Fabiane Maria Schaefer Baron
Maísa Hodecker

A expressão “tá pago” está sendo utilizada constantemente entre os praticantes de atividades físicas. Normalmente, as pessoas utilizam a hashtag (#tapago) em fotos capturadas após algum treino ser finalizado, com a intenção de divulgar que todas as atividades físicas programadas para aquele treino foram realizadas com sucesso. Contudo, fica a reflexão: se o treino foi pago, é uma dívida? E, se for dívida, é com quem? A pergunta é simples, mas as respostas não. Dívida é alguma pendência, algo que está a haver com alguém. Neste caso, a dívida pode ser com a saúde, com a sociedade, com a mídia, consigo mesma, etc. Embora possam haver diversos fatores atrelados a essa dívida, se a pessoa precisa “pagar” para fazer algo, pode estar realizando o exercício errado.

Isto se justifica já que o exercício deve proporcionar bem-estar, prazer e qualidade de vida. Quando praticar o exercício passa a ser algo “pago”, maçante e tedioso, torna-se necessário modificar o treino ou o próprio exercício, para que a pessoa resgate a vontade de praticar exercício e não se sinta na obrigação de finalizar, mas finalize por questões de satisfação pessoal. Além disso, seria benéfico conversar informalmente com o praticante de exercício físico, buscando reconhecer que exercício ou treino mais se sente confortável em realizar e identificar quais os motivos associados a prática esportiva. Outro fator preponderante para a satisfação do indivíduo é o modo como o exercício ou treino é encaminhado e direcionado, isto é, o modo como o treinador ou professor está lidando com o praticante de exercício[1].

Todo praticante de exercício possui algum objetivo final. Uns pretendem ganhar massa muscular, outros perder gordura, outros melhorar o condicionamento físico, outros por questões pertinentes a saúde, mas todos possuem algum intuito. O papel do treinador/professor é acompanhar, orientar, instruir, visando o progresso do aluno até que sejam, enfim, alcançadas as metas e o objetivo final. No decorrer desse trajeto, é relevante que o treinador/professor esteja ciente de sua postura e expressões diante dos sucessos e fracassos de seus alunos. Aconselha-se uma postura neutra, sem privilegiar mais um do que outro, mas que reconheça quando o aluno conseguiu atingir uma meta ou objetivo e que também reconheça a luta de algum aluno mesmo diante de algum fracasso[2].

Acredita-se que esses fatores são apenas alguns que podem favorecer o treino ou a prática de exercício físicos para deixar de ser “uma dívida” extremamente desgastante para ser um fator associado ao bem-estar físico e psicológico. Assim, a motivação deve ser avaliada no contexto esportivo, os exercícios programados para cada aluno/atleta devem estar equiparados ao seu nível de motivação. Alunos extremamente motivados podem decair diante de algum fracasso ou de alguma expectativa não suprida. Para eles, é aconselhável criar um treino regular e com exercícios moderados, e aumentar o nível de dificuldade gradualmente. Já alunos com baixa motivação necessitam de exercícios que sejam de sua preferência, com acréscimo gradual de exercícios com maior dificuldade de realização. Dessa forma, a cada acerto ou a cada ganho relacionado ao exercício o nível de motivação do aluno poderá aumentar proporcionalmente[2].

Portanto, acredita-se que o constante uso da hashtag “tá pago” está atrelado a falta de motivação e/ou realização pessoal para realizar a prática esportiva ou determinados treinos. Modificar os treinos, a atividade física, o horário e duração dos treinos, bem como a própria postura do treinador/professor podem favorecer para que o treino seja mais prazeroso[2]. Ressalta-se que a expressão pode comunicar uma dívida para com outrem, como mídia, sociedade, como para consigo e para melhorar a saúde. Entretanto, as premissas apontam não são cabíveis de generalização, levando em conta que diversas pessoas podem fazer o uso da referida expressão mas sentirem-se confortáveis e realizadas pós-treino.

REFERÊNCIAS

[1] RUBIO, Katia. A psicologia do esporte: histórico e áreas de atuação e pesquisa. Psicologia: Ciência e Profissão, Brasília, v. 19, n. 3, p. 60-69, 1999. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98931999000300007&lng=en&nrm=iso>. Acessos em: 29 Jan. 2018.

[2] WEINBERG, Robert S.; GOULD, Daniel. Fundamentos da psicologia do esporte e do exercício. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2008.

O que as pessoas pensam do psicólogo

Por: Guilherme Silveira

A Psicologia tem se consolidado cada vez mais como uma área importante quando falamos de saúde, principalmente no que diz respeito à saúde mental. Juntamente com sua importância, surgem vários rótulos, muitos equivocados, que lhe são empregados e que a cada dia os profissionais desta área do conhecimento tentam desconstruir, para que assim consiga-se consolidar a Psicologia como uma ciência, deixando de lado às práticas e métodos que fogem do rigor científico e buscando sua validação por meio de práticas testadas e comprovadas. Sendo assim, iremos contextualizar, ainda que de forma breve, como surgiu e se desenvolveu a Psicologia no Brasil, assim como qual é a representação social do Psicólogo no cenário brasileiro.

A Psicologia por muitos anos teve seu conhecimento estritamente ligado aos da prática de outras disciplinas, como a sociologia, filosofia, direito, teologia, pedagogia e principalmente a medicina. Somente a partir do início do século XIX a Psicologia começou a ter sua autonomia no cenário nacional, começando então a ser ensinada na Faculdade de Direito de São Paulo. Após diversas lutas pela regulamentação da profissão de Psicólogo, no ano de 1953 surge o primeiro curso superior de Psicologia no Brasil, sendo realizado na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Já no ano de 1962, por intermédio da lei n° 4119, a Psicologia e os cursos de graduação passam a serem regulamentados em nosso país, caracterizando assim a Psicologia como profissão e um grande passo para classe profissional [1].

Agora que compreendemos um pouco como surgiu e se regulamentou a Psicologia no Brasil, podemos nos perguntar, qual a verdadeira função de um Psicólogo? Pois bem, lembro-lhes que o objetivo principal deste texto não é problematizar ou discutir qual é a prática do Psicólogo, mas procurar identificar qual é o papel do Psicólogo na perspectiva da sociedade. Para tal feito nos basearemos em pesquisas que abordam a representação social do Psicólogo. A teoria das representações sociais é datada de 1950 e tem como criador Serge Moscovici. Para o criador desta teoria, as representações sociais são basicamente tudo aquilo que é construído em experiências coletivas ou individuais e que após essas experiências acabam se tornando uma forma de estereótipo a respeito de algo [2]. Um exemplo clássico, dentro da nossa discussão, é quando muitas pessoas dizem que o Psicólogo ‘cuida de gente louca’. As representações sociais são comumente construídas a partir de informações que são repassadas de diversas maneiras, entre as mais comuns estão às informações repassadas pelas mídias (televisão, rádio, jornais e redes sociais) e por informações repassadas através de gerações por intermédio de mitos e simples conversas que relatam experiências subjetivas [2].

Uma pesquisa realizada no estado do Rio Grande do Sul apontou que para grande parte dos entrevistados a prática do Psicólogo é a de ajudar e orientar pessoas com problemas emocionais [3]. Em outra pesquisa realizada com acadêmicos de cursos de exatas de uma clínica escola também no Rio Grande do Sul, 57% dos acadêmicos responderam que tem a representação social do Psicólogo como a de alguém que estuda a mente, compreende o comportamento e trata de pessoas que possuem algum tipo de doença mental [2]. Outra característica encontrada na mesma pesquisa é a de que o Psicólogo é aquele que tem o ‘dom’ de saber ouvir, de ter paciência, de entender as pessoas e saber se posicionar de forma neutra com relação aos mais diversos assuntos [2]. Ainda de acordo com os entrevistados, o Psicólogo tem uma atuação mais voltada para clínica e centros psiquiátricos, caracterizando assim o aspecto mencionado anteriormente de trabalhar com pessoas que possuem doenças mentais. Diante de tantas representações equivocadas ou falta de conhecimento sobre o fazer do Psicólogo, o que podemos fazer para transformar essa realidade? Como acabar com o rótulo de ‘cuidador de loucos’? E como fazer para que a sociedade veja a Psicologia além das práticas clínicas tradicionais?

Pois bem, muitas perguntas surgem e poucas respostas são encontradas efetivamente em prática. Discutir a atuação do Psicólogo e qual a representação social dos mesmos é algo muito mais complexo do que imaginamos. Devemos levar em consideração que muitas dessas representações sociais estão relacionadas estritamente ao momento político, histórico e econômico no qual nos encontramos. O certo é que para haver uma representação social correta do papel do Psicólogo necessita-se de uma grande mudança por parte dos próprios Psicólogos, desde lutar por seus direitos, se posicionar de uma forma crítica e correta com relação ao seu fazer, respeitando assim a ética da sua profissão e comprometendo-se com o bem estar social, a divulgação correta do conhecimento científico produzido pela Psicologia e instruindo de forma correta qual o fazer do Psicólogo nos seus mais diversos campos de atuação.

Referências:

[1] LISBOA, Felipe Stephan; BARBOSA, Altemir José Gonçalves. Formação em Psicologia no Brasil: Um Perfil dos Cursos de Graduação. Psicologia: Ciência e Profissão, Brasília, v. 29, n. 4, p. 718-737, 2009. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932009000400006> Acesso em: 17 Abr. 2016.

[2] LAHM, Camila Roberta; BOECKEL, Mariana Gonçalves. Representação Social do Psicólogo em uma Clínica-Escola do Município de Taquara/RS. Contextos Clínicos, São Leopoldo, v. 1, n. 2, p. 79-92, dez. 2009. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1983-34822008000200004&lng=pt&nrm=iso> Acesso em: 17 Abr. 2016.

[3] PRAÇA, Kátia Botelho Diamico; NOVAES, Heliane Guimarães Vieites. A Representação Social do Trabalho do Psicólogo. Psicologia: Ciência e Profissão, Brasília, v. 24, n. 2, p. 32-47, jun. 2004. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932004000200005&lng=pt&nrm=iso> Acesso em: 17 Abr. 2016.

O fazer em Psicologia na atualidade

Por: Ricardo F. de Oliveira

“Você faz psicologia!? Isso é para gente meio doida;  Nossa, você vai cuidar de gente louca; Ser psicólogo é fácil, ganha dinheiro só escutando os outros.”

 

Qual o estudante de psicologia ou psicólogo formado que nunca ouviu algum comentário deste tipo? Não é comum o psicólogo ser estereotipado como aquele indivíduo que trabalha em uma clínica e trata apenas da loucura?

A Psicologia é uma ciência nova quando comparada a outras ciências, possuindo pouco mais de 115 anos desde sua criação. Seu objeto de estudo é o comportamento humano. No Brasil, a profissão de psicólogo é reconhecida por lei desde o ano de 1962, e tem sua prática regulamentada pelo Conselho Federal de Psicologia, de acordo com a resolução nº 02/1987, o qual institui o código de ética do psicólogo. Durante todos esses anos a Psicologia cresceu muito como ciência e como profissão, mesmo assim, a sociedade ainda possui uma noção errada do que o psicólogo realmente faz, onde ele atua e qual seu papel na sociedade.

É comum que as pessoas, quando questionadas acerca do trabalho do psicólogo, citem a clínica, um divã, e um psicólogo que nada faz além de escutar. A imagem deste modelo por si só não é acurada, pois mesmo enquanto clínica, o trabalho do psicólogo vai muito além da escuta[1]. A construção científica em Psicologia nos permite um fazer muito amplo no que diz respeito a atuação, possibilitando ao psicólogo trabalhar em praticamente todas as áreas da sociedade, seja na educação, na saúde, nas organizações, e em qualquer âmbito onde houverem pessoas, pois onde há pessoas, há demandas para a Psicologia[2].

Atualmente, os psicólogos estão inseridos nos meios mais diversos, sendo o de maior destaque a saúde. Neste meio, o psicólogo atua em clínicas, hospitais, centros de atenção psicossocial, e em várias outras instituições públicas e privadas, colaborando com outros profissionais na prevenção de doenças e promoção de saúde[2]. A presença do psicólogo também se faz necessária em lugares afetados por desastres naturais, onde ele exercerá um papel muito importante tanto no acolhimento das vítimas, como nas ações preventivas, buscando preparar a sociedade para enfrentar possíveis desastres[3].

Na educação, a Psicologia tem um papel muito importante, pois atua de forma interdisciplinar com os professores e pedagogos, auxiliando direta e indiretamente na educação, nas formas de educar e na busca incessante pela democratização da educação, valorizando não apenas o ensinar, mas também os aspectos subjetivos do estudante e em como isso influencia no processo ensino-aprendizagem. Não obstante, a contribuição teórica da Psicologia no âmbito educacional é marcante, influenciando diretamente as formas de ensinar e aprender[4].

Nas organizações o papel do psicólogo é fundamental tanto para o trabalhador como para instituição onde ele está inserido, pois além dos processos de recrutamento e seleção, o psicólogo atua na promoção de saúde e prevenção de doenças que têm sua gênese nos processos laborais, influenciando direta e indiretamente neste processo, facilitando o alcance dos interesses do trabalhador e da instituição[5].

O papel da Psicologia, apesar de atualmente mais difundido nestas três áreas, às extrapola. Os conhecimentos construídos através de inúmeras pesquisas que abrangem as mais diversas áreas afetam outros fazeres, como a arquitetura, a moda, a administração, o direito, enfim, fazeres que direta ou indiretamente envolvem pessoas, vivências e experiências [5,6,7,8].

A Psicologia exerce um papel central no meio científico e social, pois seus saberes afetam ambos os meios e oferecem subsídios para a fundamentação de inúmeras práticas, os quais, acima de tudo, buscam colaborar para a promoção da saúde, a valorização da subjetividade e a proteção dos direitos humanos.

Referências

[1]LEME, Maria Alice Vanzolini da Silva; BUSSAB, Vera Silvia Raad; OTTA, Emma. A representação social da Psicologia e do psicólogo. Psicol. cienc. prof.,  Brasília ,  v. 9, n. 1, p. 29-35, 1989. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98931989000100009&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 16 abr. 2016.

[2]BASTOS, Antônio Virgílio Bittencourt; GOMIDE, Paula Inez Cunha. O psicólogo brasileiro: sua atuação e formação profissional. Psicol. cienc. prof.,  Brasília ,  v. 9, n. 1, p. 6-15, 1989 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98931989000100003&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 16  abr. 2016.

[3]ALVES, Roberta Borghetti; LACERDA, Márcia Alves de Camargo; LEGAL, Eduardo José. A atuação do psicólogo diante dos desastres naturais: uma revisão. Psicol. estud.,  Maringá ,  v. 17, n. 2, p. 307-315, June  2012. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-73722012000200014&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 16 abr.  2016.

[4]DAZZANI, Maria Virgínia Machado. A psicologia escolar e a educação inclusiva: Uma leitura crítica. Psicol. cienc. prof.,  Brasília ,  v. 30, n. 2, p. 362-375, jun.  2010. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932010000200011&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em 16  abr.  2016.

[5]BASTOS, Antônio Virgilio Bittencourt; GALVAO-MARTINS, Ana Helena Caldeira. O que pode fazer o psicólogo organizacional. Psicol. cienc. prof.,  Brasília ,  v. 10, n. 1, p. 10-18, 1990. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98931990000100005&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 16  abr.  2016.

[6]ELALI, Gleice Azambuja. Psicologia e Arquitetura: em busca do locus interdisciplinar. Estud. psicol. (Natal), Natal , v. 2, n. 2, p. 349-362, Dez. 1997.   Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-294X1997000200009&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 18  abr. 2016.

[7]FLUGEL, John Carl. Sobre o valor afetivo das roupas. Psyche (São Paulo),  São Paulo, v. 12, n. 22, p. 13-26, jun. 2008. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-11382008000100002&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em:  18  abr.  2016.

[8]LAGO, Vivian de Medeiros et al . Um breve histórico da psicologia jurídica no Brasil e seus campos de atuação. Estud. psicol. (Campinas),  Campinas ,  v. 26, n. 4, p. 483-491, Dez.  2009. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-166X2009000400009&lng=en&nrm=iso>. Acesso em:  18  abr.  2016.

Afinal, o que é Psicologia?

Por: Bruno Kern

Não é de hoje que se discute sobre “o que é Psicologia” ou então sobre a atuação do psicólogo. Em uma pesquisa de 1984, da Doutora Ana Maria Almeida Carvalho[1], já se pensava sobre esses aspectos que, visivelmente, tinham uma preocupação com o tipo de profissional que estaria se formando nas universidades. Mas, se a três décadas este assunto já era fomentado e pesquisado, como está a atual situação da psicologia e sua atuação?

Indiscutivelmente, um dos grandes problemas enfrentados pela psicologia é a questão de existir diferentes abordagens que sustentam o fazer da psicologia, sua visão de homem e mundo e suas técnicas terapêuticas. Em sua pesquisa bibliográfica, Dazzani[2] apresenta estes problemas vinculados a atuação dos profissionais na escola e apontam que, tanto a diferença de abordagens como a situação da psicologia em relação à história dela no Brasil, deixam a sociedade inquieta sobre o fazer do psicólogo. Isto representa um desafio a ser enfrentado para poder explicar  qual  é realmente o papel da psicologia no contexto de hoje.

É interessante ressaltar que, mesmo com tantas divergências no fazer em psicologia, o Conselho Federal de Psicologia dispõe aos profissionais da área o Código de Ética Profissional do Psicólogo[3], onde todos têm acesso às principais características do fazer psicologia, como os procedimentos éticos e a responsabilidade que o psicólogo deve ter para com a comunidade em geral e para com os indivíduos que estão em psicoterapia. Fazer o qual, segundo o código, é pautada nos Direitos Humanos, atentando para a dignidade e liberdade, tanto individual quanto coletiva, buscando sempre informar sobre os procedimentos e contribuir com cientificidade para toda a sociedade.

Há também outros autores que ressaltam o que a psicologia tem para nos oferecer hoje, como é o caso do Tourinho[4], que em seu artigo “A Produção de Conhecimento em Psicologia: análise do comportamento” de 2003, traz uma noção mais coerente sobre “O que é a Psicologia”. Para definir este conceito de Psicologia, Tourinho[4] utiliza-se principalmente de que a Psicologia é a relação entre uma busca por conhecimento científico aplicável, ou seja, pesquisas científicas que auxiliarão a atuação do psicólogo e também, não menos importante, discussões filosóficas sobre a sociedade, sobre como podemos relacionar as situações encontradas nas pesquisas científicas com os problemas do dia-a-dia e que, tudo isto, esteja voltado para melhor compreender o ser humano e auxiliar nos problemas que se apresentam.

Mais recentemente, no livro da Dr. Ana M. Bahia Bock[5], a autora relata nos seus primeiros capítulos a conflituosa definição de Psicologia e reforça que este problema é dado pelas inúmeras escolas psicológicas que divergem em base teórica, objeto de estudo e técnicas. Porém, a autora traz um conceito que explica muito bem o objetivo da Psicologia no âmbito geral,  o conceito da subjetividade. Sendo o objeto de estudo o ser humano, a psicologia entende que o ser humano é dotado de vários aspectos que o identificam como tal, sendo tanto seus contatos sociais, suas crenças, seus gostos, seus sentimentos, seus comportamentos visíveis, e todas as interações de sua vida.

Estas interações constituem a subjetividade do ser humano, e a Psicologia baseia-se nesta subjetividade para trabalhar e pesquisar cientificamente sobre as dúvidas e paradigmas do dia-a-dia, como por exemplo “Eu sou assim porque meus pais me criaram assim?”,  para tentar melhor compreender o seu objeto de estudo, o ser o humano.

Referências:

[1] CARVALHO, Ana Maria Almeida. “Atuação psicológica”. Psicol. cienc. prof.,  Brasília ,  v. 4, n. 2, p. 7-9,    1984. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98931984000200003&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 15  Abril de 2016.

[2] DAZZANI. Maria V. M. A psicologia escolar e a educação inclusiva: uma leitura crítica. Psic. Ciên. Prof. Bahia. 362-375. 2010 Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932010000200011> Acesso em: 15 Abril de 2016

[3] BRASIL, Código de ética (010/2005). Código de Ética Profissional do Psicólogo. Aprovado em 21 de julho de 2005. Documento Online, disponível em: http://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2012/07/codigo-de-etica-psicologia.pdf. Acesso em: 06/05/2016.

[4] TOURINHO, Emmanuel Zagury. A produção de conhecimento em psicologia: a análise do comportamento. Psicol. cienc. prof., Brasília ,  v. 23, n. 2, p. 30-41,  jun. 2003. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932003000200006&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  16  abr.  2016.

[5] BOCK, Ana M. B.;  FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria L. T. Psicologias: Uma introdução ao estudo de Psicologia. Editora Saraiva: São Paulo, 2008, p.368