O fazer em Psicologia na atualidade

Por: Ricardo F. de Oliveira

“Você faz psicologia!? Isso é para gente meio doida;  Nossa, você vai cuidar de gente louca; Ser psicólogo é fácil, ganha dinheiro só escutando os outros.”

 

Qual o estudante de psicologia ou psicólogo formado que nunca ouviu algum comentário deste tipo? Não é comum o psicólogo ser estereotipado como aquele indivíduo que trabalha em uma clínica e trata apenas da loucura?

A Psicologia é uma ciência nova quando comparada a outras ciências, possuindo pouco mais de 115 anos desde sua criação. Seu objeto de estudo é o comportamento humano. No Brasil, a profissão de psicólogo é reconhecida por lei desde o ano de 1962, e tem sua prática regulamentada pelo Conselho Federal de Psicologia, de acordo com a resolução nº 02/1987, o qual institui o código de ética do psicólogo. Durante todos esses anos a Psicologia cresceu muito como ciência e como profissão, mesmo assim, a sociedade ainda possui uma noção errada do que o psicólogo realmente faz, onde ele atua e qual seu papel na sociedade.

É comum que as pessoas, quando questionadas acerca do trabalho do psicólogo, citem a clínica, um divã, e um psicólogo que nada faz além de escutar. A imagem deste modelo por si só não é acurada, pois mesmo enquanto clínica, o trabalho do psicólogo vai muito além da escuta[1]. A construção científica em Psicologia nos permite um fazer muito amplo no que diz respeito a atuação, possibilitando ao psicólogo trabalhar em praticamente todas as áreas da sociedade, seja na educação, na saúde, nas organizações, e em qualquer âmbito onde houverem pessoas, pois onde há pessoas, há demandas para a Psicologia[2].

Atualmente, os psicólogos estão inseridos nos meios mais diversos, sendo o de maior destaque a saúde. Neste meio, o psicólogo atua em clínicas, hospitais, centros de atenção psicossocial, e em várias outras instituições públicas e privadas, colaborando com outros profissionais na prevenção de doenças e promoção de saúde[2]. A presença do psicólogo também se faz necessária em lugares afetados por desastres naturais, onde ele exercerá um papel muito importante tanto no acolhimento das vítimas, como nas ações preventivas, buscando preparar a sociedade para enfrentar possíveis desastres[3].

Na educação, a Psicologia tem um papel muito importante, pois atua de forma interdisciplinar com os professores e pedagogos, auxiliando direta e indiretamente na educação, nas formas de educar e na busca incessante pela democratização da educação, valorizando não apenas o ensinar, mas também os aspectos subjetivos do estudante e em como isso influencia no processo ensino-aprendizagem. Não obstante, a contribuição teórica da Psicologia no âmbito educacional é marcante, influenciando diretamente as formas de ensinar e aprender[4].

Nas organizações o papel do psicólogo é fundamental tanto para o trabalhador como para instituição onde ele está inserido, pois além dos processos de recrutamento e seleção, o psicólogo atua na promoção de saúde e prevenção de doenças que têm sua gênese nos processos laborais, influenciando direta e indiretamente neste processo, facilitando o alcance dos interesses do trabalhador e da instituição[5].

O papel da Psicologia, apesar de atualmente mais difundido nestas três áreas, às extrapola. Os conhecimentos construídos através de inúmeras pesquisas que abrangem as mais diversas áreas afetam outros fazeres, como a arquitetura, a moda, a administração, o direito, enfim, fazeres que direta ou indiretamente envolvem pessoas, vivências e experiências [5,6,7,8].

A Psicologia exerce um papel central no meio científico e social, pois seus saberes afetam ambos os meios e oferecem subsídios para a fundamentação de inúmeras práticas, os quais, acima de tudo, buscam colaborar para a promoção da saúde, a valorização da subjetividade e a proteção dos direitos humanos.

Referências

[1]LEME, Maria Alice Vanzolini da Silva; BUSSAB, Vera Silvia Raad; OTTA, Emma. A representação social da Psicologia e do psicólogo. Psicol. cienc. prof.,  Brasília ,  v. 9, n. 1, p. 29-35, 1989. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98931989000100009&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 16 abr. 2016.

[2]BASTOS, Antônio Virgílio Bittencourt; GOMIDE, Paula Inez Cunha. O psicólogo brasileiro: sua atuação e formação profissional. Psicol. cienc. prof.,  Brasília ,  v. 9, n. 1, p. 6-15, 1989 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98931989000100003&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 16  abr. 2016.

[3]ALVES, Roberta Borghetti; LACERDA, Márcia Alves de Camargo; LEGAL, Eduardo José. A atuação do psicólogo diante dos desastres naturais: uma revisão. Psicol. estud.,  Maringá ,  v. 17, n. 2, p. 307-315, June  2012. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-73722012000200014&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 16 abr.  2016.

[4]DAZZANI, Maria Virgínia Machado. A psicologia escolar e a educação inclusiva: Uma leitura crítica. Psicol. cienc. prof.,  Brasília ,  v. 30, n. 2, p. 362-375, jun.  2010. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932010000200011&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em 16  abr.  2016.

[5]BASTOS, Antônio Virgilio Bittencourt; GALVAO-MARTINS, Ana Helena Caldeira. O que pode fazer o psicólogo organizacional. Psicol. cienc. prof.,  Brasília ,  v. 10, n. 1, p. 10-18, 1990. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98931990000100005&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 16  abr.  2016.

[6]ELALI, Gleice Azambuja. Psicologia e Arquitetura: em busca do locus interdisciplinar. Estud. psicol. (Natal), Natal , v. 2, n. 2, p. 349-362, Dez. 1997.   Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-294X1997000200009&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 18  abr. 2016.

[7]FLUGEL, John Carl. Sobre o valor afetivo das roupas. Psyche (São Paulo),  São Paulo, v. 12, n. 22, p. 13-26, jun. 2008. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-11382008000100002&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em:  18  abr.  2016.

[8]LAGO, Vivian de Medeiros et al . Um breve histórico da psicologia jurídica no Brasil e seus campos de atuação. Estud. psicol. (Campinas),  Campinas ,  v. 26, n. 4, p. 483-491, Dez.  2009. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-166X2009000400009&lng=en&nrm=iso>. Acesso em:  18  abr.  2016.

Afinal, o que é Psicologia?

Por: Bruno Kern

Não é de hoje que se discute sobre “o que é Psicologia” ou então sobre a atuação do psicólogo. Em uma pesquisa de 1984, da Doutora Ana Maria Almeida Carvalho[1], já se pensava sobre esses aspectos que, visivelmente, tinham uma preocupação com o tipo de profissional que estaria se formando nas universidades. Mas, se a três décadas este assunto já era fomentado e pesquisado, como está a atual situação da psicologia e sua atuação?

Indiscutivelmente, um dos grandes problemas enfrentados pela psicologia é a questão de existir diferentes abordagens que sustentam o fazer da psicologia, sua visão de homem e mundo e suas técnicas terapêuticas. Em sua pesquisa bibliográfica, Dazzani[2] apresenta estes problemas vinculados a atuação dos profissionais na escola e apontam que, tanto a diferença de abordagens como a situação da psicologia em relação à história dela no Brasil, deixam a sociedade inquieta sobre o fazer do psicólogo. Isto representa um desafio a ser enfrentado para poder explicar  qual  é realmente o papel da psicologia no contexto de hoje.

É interessante ressaltar que, mesmo com tantas divergências no fazer em psicologia, o Conselho Federal de Psicologia dispõe aos profissionais da área o Código de Ética Profissional do Psicólogo[3], onde todos têm acesso às principais características do fazer psicologia, como os procedimentos éticos e a responsabilidade que o psicólogo deve ter para com a comunidade em geral e para com os indivíduos que estão em psicoterapia. Fazer o qual, segundo o código, é pautada nos Direitos Humanos, atentando para a dignidade e liberdade, tanto individual quanto coletiva, buscando sempre informar sobre os procedimentos e contribuir com cientificidade para toda a sociedade.

Há também outros autores que ressaltam o que a psicologia tem para nos oferecer hoje, como é o caso do Tourinho[4], que em seu artigo “A Produção de Conhecimento em Psicologia: análise do comportamento” de 2003, traz uma noção mais coerente sobre “O que é a Psicologia”. Para definir este conceito de Psicologia, Tourinho[4] utiliza-se principalmente de que a Psicologia é a relação entre uma busca por conhecimento científico aplicável, ou seja, pesquisas científicas que auxiliarão a atuação do psicólogo e também, não menos importante, discussões filosóficas sobre a sociedade, sobre como podemos relacionar as situações encontradas nas pesquisas científicas com os problemas do dia-a-dia e que, tudo isto, esteja voltado para melhor compreender o ser humano e auxiliar nos problemas que se apresentam.

Mais recentemente, no livro da Dr. Ana M. Bahia Bock[5], a autora relata nos seus primeiros capítulos a conflituosa definição de Psicologia e reforça que este problema é dado pelas inúmeras escolas psicológicas que divergem em base teórica, objeto de estudo e técnicas. Porém, a autora traz um conceito que explica muito bem o objetivo da Psicologia no âmbito geral,  o conceito da subjetividade. Sendo o objeto de estudo o ser humano, a psicologia entende que o ser humano é dotado de vários aspectos que o identificam como tal, sendo tanto seus contatos sociais, suas crenças, seus gostos, seus sentimentos, seus comportamentos visíveis, e todas as interações de sua vida.

Estas interações constituem a subjetividade do ser humano, e a Psicologia baseia-se nesta subjetividade para trabalhar e pesquisar cientificamente sobre as dúvidas e paradigmas do dia-a-dia, como por exemplo “Eu sou assim porque meus pais me criaram assim?”,  para tentar melhor compreender o seu objeto de estudo, o ser o humano.

Referências:

[1] CARVALHO, Ana Maria Almeida. “Atuação psicológica”. Psicol. cienc. prof.,  Brasília ,  v. 4, n. 2, p. 7-9,    1984. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98931984000200003&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 15  Abril de 2016.

[2] DAZZANI. Maria V. M. A psicologia escolar e a educação inclusiva: uma leitura crítica. Psic. Ciên. Prof. Bahia. 362-375. 2010 Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932010000200011> Acesso em: 15 Abril de 2016

[3] BRASIL, Código de ética (010/2005). Código de Ética Profissional do Psicólogo. Aprovado em 21 de julho de 2005. Documento Online, disponível em: http://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2012/07/codigo-de-etica-psicologia.pdf. Acesso em: 06/05/2016.

[4] TOURINHO, Emmanuel Zagury. A produção de conhecimento em psicologia: a análise do comportamento. Psicol. cienc. prof., Brasília ,  v. 23, n. 2, p. 30-41,  jun. 2003. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932003000200006&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  16  abr.  2016.

[5] BOCK, Ana M. B.;  FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria L. T. Psicologias: Uma introdução ao estudo de Psicologia. Editora Saraiva: São Paulo, 2008, p.368