O TREINO DE HOJE #TÁPAGO: DÍVIDA COM QUEM?

Se o treino foi pago, é uma dívida? E, se for dívida, é com quem? A pergunta é simples, mas as respostas não.

Por: Fabiane Maria Schaefer Baron
Maísa Hodecker

A expressão “tá pago” está sendo utilizada constantemente entre os praticantes de atividades físicas. Normalmente, as pessoas utilizam a hashtag (#tapago) em fotos capturadas após algum treino ser finalizado, com a intenção de divulgar que todas as atividades físicas programadas para aquele treino foram realizadas com sucesso. Contudo, fica a reflexão: se o treino foi pago, é uma dívida? E, se for dívida, é com quem? A pergunta é simples, mas as respostas não. Dívida é alguma pendência, algo que está a haver com alguém. Neste caso, a dívida pode ser com a saúde, com a sociedade, com a mídia, consigo mesma, etc. Embora possam haver diversos fatores atrelados a essa dívida, se a pessoa precisa “pagar” para fazer algo, pode estar realizando o exercício errado.

Isto se justifica já que o exercício deve proporcionar bem-estar, prazer e qualidade de vida. Quando praticar o exercício passa a ser algo “pago”, maçante e tedioso, torna-se necessário modificar o treino ou o próprio exercício, para que a pessoa resgate a vontade de praticar exercício e não se sinta na obrigação de finalizar, mas finalize por questões de satisfação pessoal. Além disso, seria benéfico conversar informalmente com o praticante de exercício físico, buscando reconhecer que exercício ou treino mais se sente confortável em realizar e identificar quais os motivos associados a prática esportiva. Outro fator preponderante para a satisfação do indivíduo é o modo como o exercício ou treino é encaminhado e direcionado, isto é, o modo como o treinador ou professor está lidando com o praticante de exercício[1].

Todo praticante de exercício possui algum objetivo final. Uns pretendem ganhar massa muscular, outros perder gordura, outros melhorar o condicionamento físico, outros por questões pertinentes a saúde, mas todos possuem algum intuito. O papel do treinador/professor é acompanhar, orientar, instruir, visando o progresso do aluno até que sejam, enfim, alcançadas as metas e o objetivo final. No decorrer desse trajeto, é relevante que o treinador/professor esteja ciente de sua postura e expressões diante dos sucessos e fracassos de seus alunos. Aconselha-se uma postura neutra, sem privilegiar mais um do que outro, mas que reconheça quando o aluno conseguiu atingir uma meta ou objetivo e que também reconheça a luta de algum aluno mesmo diante de algum fracasso[2].

Acredita-se que esses fatores são apenas alguns que podem favorecer o treino ou a prática de exercício físicos para deixar de ser “uma dívida” extremamente desgastante para ser um fator associado ao bem-estar físico e psicológico. Assim, a motivação deve ser avaliada no contexto esportivo, os exercícios programados para cada aluno/atleta devem estar equiparados ao seu nível de motivação. Alunos extremamente motivados podem decair diante de algum fracasso ou de alguma expectativa não suprida. Para eles, é aconselhável criar um treino regular e com exercícios moderados, e aumentar o nível de dificuldade gradualmente. Já alunos com baixa motivação necessitam de exercícios que sejam de sua preferência, com acréscimo gradual de exercícios com maior dificuldade de realização. Dessa forma, a cada acerto ou a cada ganho relacionado ao exercício o nível de motivação do aluno poderá aumentar proporcionalmente[2].

Portanto, acredita-se que o constante uso da hashtag “tá pago” está atrelado a falta de motivação e/ou realização pessoal para realizar a prática esportiva ou determinados treinos. Modificar os treinos, a atividade física, o horário e duração dos treinos, bem como a própria postura do treinador/professor podem favorecer para que o treino seja mais prazeroso[2]. Ressalta-se que a expressão pode comunicar uma dívida para com outrem, como mídia, sociedade, como para consigo e para melhorar a saúde. Entretanto, as premissas apontam não são cabíveis de generalização, levando em conta que diversas pessoas podem fazer o uso da referida expressão mas sentirem-se confortáveis e realizadas pós-treino.

REFERÊNCIAS

[1] RUBIO, Katia. A psicologia do esporte: histórico e áreas de atuação e pesquisa. Psicologia: Ciência e Profissão, Brasília, v. 19, n. 3, p. 60-69, 1999. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98931999000300007&lng=en&nrm=iso>. Acessos em: 29 Jan. 2018.

[2] WEINBERG, Robert S.; GOULD, Daniel. Fundamentos da psicologia do esporte e do exercício. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2008.

O fazer em Psicologia na atualidade

Por: Ricardo F. de Oliveira

“Você faz psicologia!? Isso é para gente meio doida;  Nossa, você vai cuidar de gente louca; Ser psicólogo é fácil, ganha dinheiro só escutando os outros.”

 

Qual o estudante de psicologia ou psicólogo formado que nunca ouviu algum comentário deste tipo? Não é comum o psicólogo ser estereotipado como aquele indivíduo que trabalha em uma clínica e trata apenas da loucura?

A Psicologia é uma ciência nova quando comparada a outras ciências, possuindo pouco mais de 115 anos desde sua criação. Seu objeto de estudo é o comportamento humano. No Brasil, a profissão de psicólogo é reconhecida por lei desde o ano de 1962, e tem sua prática regulamentada pelo Conselho Federal de Psicologia, de acordo com a resolução nº 02/1987, o qual institui o código de ética do psicólogo. Durante todos esses anos a Psicologia cresceu muito como ciência e como profissão, mesmo assim, a sociedade ainda possui uma noção errada do que o psicólogo realmente faz, onde ele atua e qual seu papel na sociedade.

É comum que as pessoas, quando questionadas acerca do trabalho do psicólogo, citem a clínica, um divã, e um psicólogo que nada faz além de escutar. A imagem deste modelo por si só não é acurada, pois mesmo enquanto clínica, o trabalho do psicólogo vai muito além da escuta[1]. A construção científica em Psicologia nos permite um fazer muito amplo no que diz respeito a atuação, possibilitando ao psicólogo trabalhar em praticamente todas as áreas da sociedade, seja na educação, na saúde, nas organizações, e em qualquer âmbito onde houverem pessoas, pois onde há pessoas, há demandas para a Psicologia[2].

Atualmente, os psicólogos estão inseridos nos meios mais diversos, sendo o de maior destaque a saúde. Neste meio, o psicólogo atua em clínicas, hospitais, centros de atenção psicossocial, e em várias outras instituições públicas e privadas, colaborando com outros profissionais na prevenção de doenças e promoção de saúde[2]. A presença do psicólogo também se faz necessária em lugares afetados por desastres naturais, onde ele exercerá um papel muito importante tanto no acolhimento das vítimas, como nas ações preventivas, buscando preparar a sociedade para enfrentar possíveis desastres[3].

Na educação, a Psicologia tem um papel muito importante, pois atua de forma interdisciplinar com os professores e pedagogos, auxiliando direta e indiretamente na educação, nas formas de educar e na busca incessante pela democratização da educação, valorizando não apenas o ensinar, mas também os aspectos subjetivos do estudante e em como isso influencia no processo ensino-aprendizagem. Não obstante, a contribuição teórica da Psicologia no âmbito educacional é marcante, influenciando diretamente as formas de ensinar e aprender[4].

Nas organizações o papel do psicólogo é fundamental tanto para o trabalhador como para instituição onde ele está inserido, pois além dos processos de recrutamento e seleção, o psicólogo atua na promoção de saúde e prevenção de doenças que têm sua gênese nos processos laborais, influenciando direta e indiretamente neste processo, facilitando o alcance dos interesses do trabalhador e da instituição[5].

O papel da Psicologia, apesar de atualmente mais difundido nestas três áreas, às extrapola. Os conhecimentos construídos através de inúmeras pesquisas que abrangem as mais diversas áreas afetam outros fazeres, como a arquitetura, a moda, a administração, o direito, enfim, fazeres que direta ou indiretamente envolvem pessoas, vivências e experiências [5,6,7,8].

A Psicologia exerce um papel central no meio científico e social, pois seus saberes afetam ambos os meios e oferecem subsídios para a fundamentação de inúmeras práticas, os quais, acima de tudo, buscam colaborar para a promoção da saúde, a valorização da subjetividade e a proteção dos direitos humanos.

Referências

[1]LEME, Maria Alice Vanzolini da Silva; BUSSAB, Vera Silvia Raad; OTTA, Emma. A representação social da Psicologia e do psicólogo. Psicol. cienc. prof.,  Brasília ,  v. 9, n. 1, p. 29-35, 1989. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98931989000100009&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 16 abr. 2016.

[2]BASTOS, Antônio Virgílio Bittencourt; GOMIDE, Paula Inez Cunha. O psicólogo brasileiro: sua atuação e formação profissional. Psicol. cienc. prof.,  Brasília ,  v. 9, n. 1, p. 6-15, 1989 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98931989000100003&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 16  abr. 2016.

[3]ALVES, Roberta Borghetti; LACERDA, Márcia Alves de Camargo; LEGAL, Eduardo José. A atuação do psicólogo diante dos desastres naturais: uma revisão. Psicol. estud.,  Maringá ,  v. 17, n. 2, p. 307-315, June  2012. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-73722012000200014&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 16 abr.  2016.

[4]DAZZANI, Maria Virgínia Machado. A psicologia escolar e a educação inclusiva: Uma leitura crítica. Psicol. cienc. prof.,  Brasília ,  v. 30, n. 2, p. 362-375, jun.  2010. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932010000200011&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em 16  abr.  2016.

[5]BASTOS, Antônio Virgilio Bittencourt; GALVAO-MARTINS, Ana Helena Caldeira. O que pode fazer o psicólogo organizacional. Psicol. cienc. prof.,  Brasília ,  v. 10, n. 1, p. 10-18, 1990. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98931990000100005&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 16  abr.  2016.

[6]ELALI, Gleice Azambuja. Psicologia e Arquitetura: em busca do locus interdisciplinar. Estud. psicol. (Natal), Natal , v. 2, n. 2, p. 349-362, Dez. 1997.   Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-294X1997000200009&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 18  abr. 2016.

[7]FLUGEL, John Carl. Sobre o valor afetivo das roupas. Psyche (São Paulo),  São Paulo, v. 12, n. 22, p. 13-26, jun. 2008. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-11382008000100002&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em:  18  abr.  2016.

[8]LAGO, Vivian de Medeiros et al . Um breve histórico da psicologia jurídica no Brasil e seus campos de atuação. Estud. psicol. (Campinas),  Campinas ,  v. 26, n. 4, p. 483-491, Dez.  2009. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-166X2009000400009&lng=en&nrm=iso>. Acesso em:  18  abr.  2016.